Africa Monitor

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CPLP no Brasil: Uma Comunidade Ainda Invisível

CPLP no Brasil: Uma Comunidade Ainda Invisível

 

Por: Cristian Góes*



O que faz os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe; Brasil, Portugal e Timor Leste) se reconhecerem como comunidade? Na fundação da CPLP em 1996 a grande justificativa foi a língua comum, o português. Não há dúvida dessa importância, mas todos sabemos que apenas o idioma oficial não sustenta uma comunidade. Ele é apenas uma dentre as inúmeras vinculações dos povos. No caso da CPLP, é preciso reconhecer, logo de partida, a condição de metrópole de Portugal e de colônia portuguesa dos demais países.

O Brasil, por exemplo, é um resultado interesse desse processo, porque nele se deu uma vinculação violenta entre invasores europeus, povo originários (erroneamente chamados de índios) e africanos arrancados de suas terras e escravizados no Brasil. Emerge, assim, uma nação que poderia ser síntese e potência para o exercício da partilha de uma comunidade.

Curiosamente, a elite brasileira tenta apagar a possibilidade de reconhecimento identitário entre nós. E isso não ocorre por vergonha diante de uma impagável dívida com os povos originários e africanos escravizados. Pelo contrário. O Brasil, além de não reconhecer a CPLP, age fortemente contra qualquer possibilidade de visibilização de vínculos entre nós.

Realizei uma longa investigação no Doutoramento em Comunicação Social na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), no Brasil. Estudei sobre o jornalismo e seus modos de visibilização e de invisibilização. Interessava-me, desde sempre, aquilo que a comunicação social buscava esconder, ocultar, tornar invisível.

O objeto que investiguei à luz da tensão visível/ invisível foi exatamente CPLP. Queria saber como o Brasil noticiou a CPLP e as temáticas que a envolve nos 20 primeiros anos dessa comunidade (1996-2016). Para essa tarefa, escolhi os dois maiores jornais brasileiros, O Globo e a Folha de S. Paulo.

O resultado dessa investigação é categórico: a maior nação lusófona do mundo não reconhece a sua comunidade. E o mais grave, ela a rejeita. Em duas décadas, tanto Folha quanto O Globo apenas publicaram quatro pequenas notícias em média, por ano, sobre a comunidade.

O porquê da não existência dessa comunidade no Brasil está exatamente nas raras notícias sobre ela. Os dois jornais, porta-vozes da elite brasileira, sempre consideraram a CPLP um “bloco” pobre e negro porque é maioritariamente africano. Os poucos registros fazem uma associação direta entre miséria, corrupção, tráfico de drogas, ditadura com as nações africanas, como se o Brasil não tivesse essas “qualidades” em altíssimo grau.

Tem-se, uma Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que é apagada no Brasil em razão da cultura racista e classista da elite nacional expressa em seus jornais.

Quanto o então presidente do Brasil, Lula da Silva, adotou uma postura de aproximação da CPLP, especialmente com os países lusófonos africanos, os jornais adotaram um discurso que criminalizava essa proximidade. As notícias buscavam associar Lula com corrupção, pobreza e ditadores africanos. Em 06 de julho de 2010, por exemplo, O Globo publicou um editorial com o título “Más companhias”, onde critica Lula e sua aproximação com a África lusófona.

Em resumo, a violenta invisibilização da lusofonia no Brasil tem relação direta com uma deformação identitária produzida pela elite nacional e que remonta à Colônia. Esse processo estruturou o racismo na sociedade brasileira de modo a impedir enxergar os vínculos dos brasileiros com os povos lusófonos, em especial, os africanos. No fundo, o objetivo desse apagamento é evitar que os brasileiros se enxerguem no espelho.

O problema não é a CPLP. Ele poderia ser uma solução enquanto instrumento de diversidade, de acolhimento das várias lusofonias, sem hierarquias entre nós. A existência visível no Brasil da comunidade lusófona seria fundamental para fomentar a pertença a um conjunto de povos com fortíssimos laços históricos e identitários, especialmente com os irmãos de África. A comunidade é o lugar privilegiado de reencontro do Brasil com o Brasil mais real e profundo.

Essa longa investigação sobre o apagamento da CPLP no Brasil, objeto de um doutoramento, foi transformada no livro “A comunidade invisível: jornalismo, identidades e a rejeição dos povos de língua portuguesa no Brasil” (Ponteditora), a ser lançado em dezembro próximo. O livro traz o debate sobre a língua portuguesa, a comunidade e a globalização; apresenta dados e gráficos da investigação e aponta os porquês de o Brasil rejeitar os vínculos com a CPLP.


Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Sociabilidade
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