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Eleições podem esvaziar tensões em Moçambique

Eleições podem esvaziar tensões em MoçambiqueNo contexto actual de instabilidade e tensão política em Moçambique, as eleições autárquicas podem conter respostas para o futuro do país. Na voz de peritos do ISCTE, porém, "conflito" pode ser uma palavra demasiado forte para a situação, que, afinal, estará "a chegar ao seu fim"; e, muito mais importante que as autárquicas para o seu alívio, será a escolha do próximo presidente.

Quanto à tomada de destaque do MDM nestas eleições, Gabriel Mithá Ribeiro, do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, considera que o partido tem uma posição ambivalente: "É uma força política que, a prazo, é uma incógnita." Por não estar associado intrinsecamente à história do país, como a RENAMO e a FRELIMO, não tem o mesmo peso histórico, mas também por isso não está tão comprometida "com os lastros da guerra e da violência." Então, propõe Mithá Ribeiro, "uma eventual mudança de poder pacífica em Moçambique poderá passar pelo MDM, por exemplo coligado com a RENAMO."

O investigador Fernando Jorge Cardoso, da mesma instituição, concorda que "os resultados das eleições são um factor de pressão positivo para o fim do conflito" devido ao ganho de importância do MDM, que ocupou um espaço deixado em aberto pela RENAMO, tendo esta decidido boicotar as eleições do passado dia 22. Mithá Ribeiro tem uma reserva, no entanto: "É um sinal de mudança, que não quer dizer que se traduza directamente a nível nacional, dado ser um partido de implantação muito localizada, num país diverso e extenso."

Mais importante do que o verificado nestas eleições, para Mithá Ribeiro, será o preparar das eleições legislativas e presidenciais de 2014. "A chave do agravamento ou desanuviamento do actual momento de tensão em Moçambique estará no sucessor do presidente Armando Guebuza," defende o investigador. Sublinha que o terminar do ciclo presidencial de Guebuza é favorecedor do clima de tensão, e que a transição, em 2014, "poderá ser um momento politicamente sensível que a RENAMO vai tentar aproveitar."

Contudo, Mithá Ribeiro aproveita para destacar que o uso do termo "conflito" para falar deste período tenso é "um pouco forte." "A sociedade moçambicana tem adquirido um peso crescente, que a torna capaz de condicionar os processos políticos, em geral no sentido da paz, ou, pelo menos, da grande contenção das partes nos ímpetos de atuação bélica," esclarece, acrescentando que são "sinais de esperança" que as várias forças políticas se contenham por falta de apoio popular a iniciativas mais drásticas.

 

As tensões e as relações externas

Quanto à relação entre Moçambique e o resto da lusofonia, os investigadores do ISCTE estão de acordo: as tensões internas em Moçambique não têm tido impacto nos outros países. "Todos os governos da CPLP manifestaram a sua solidariedade com o governo da FRELIMO," afirma Fernando Jorge Cardoso, "o conflito só poderá ter algum papel caso permaneça ou se agrave."

O investigador Eugénio Almeida, também do Centro de Estudos Internacionais, não crê que haja espaço para contágio da tensão interna moçambicana para a outra margem do continente: "Nada têm de comum a situação em Moçambique e a actual situação em Angola. Por essa razão não prevejo que haja impacto na relação entre o Governo e a oposição [em Angola]. Até porque, como se sabe, o Governo pouco crédito dá à oposição."

Eugénio Almeida ressalva que, embora o governo angolano tenha sido rápido a condenar os actos da RENAMO na Princesa do Índico, alguns dirigentes moçambicanos próximos do poder dizem que, "em caso de problemas político-sociais em Angola e que ponham em causa a política do partido maioritário e dos seus dirigentes, nada fariam para ajudar," conforme o próprio investigador argumenta no seu ensaio «Angola, Potência Regional em Emergência».